1 de fevereiro de 2015

Caminhos do trem

O passeio de hoje é seguir parte da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, saindo de Araçatuba sentido Andradina, seguindo o mais próximo possível seu percurso passando por estradas de terra, fazendas e cidades. O percurso foi marcado via Google Hearth e GPS Trackmaker, transferido para o GPS, que vai me guiar. Reservei somente o período da manhã para este passeio e pretendo chegar até Andradina, se possível.

Um pouco de história:
A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) foi construída na primeira metade do século XX, e parte de sua rota ainda existente movimentam cargas entre Bauru/SP e Corumbá/MS, onde se liga com a rede ferroviária boliviana até Santa Cruz de la Sierra; havendo ainda um ramal entre Campo Grande/MS e Corumbá/MS.



A construção começou como iniciativa privada, mas antes de seu término foi estatizada em 1917, antes de ser terminada, posteriormente passando a fazer parte da Rede Ferroviária Federal S.A. em 1957. Desde 2006 pertence à ALL - América Latina Logística S.A.
A idéia de uma ligação à província do Mato Grosso vem desde o império, muitos estudos de trechos forma feitos e abandonados, sendo que somente em 1905 iniciou-se a construção, partindo de Bauru. Mesmo durante a construção ocorreram várias mudanças de projetos e trechos, assim como transferências para a União e privatizações. No final ficou como domínio da União, sendo que a Companhia E. F. Noroeste do Brasil deveria construí-la, mas poderia explorá-la por 60 anos. É incrível como as bagunças de governo ocorrem desde aquela época.
Em 1908 a estrada de ferro chegou a Araçatuba.
A partir de Araçatuba a ferrovia se dividiu em duas: 
- Ramal de Lussanvira, foi um tronco até 1940 e extinto em 1962, Engenheiro Taveira (antiga Potiguara), que percorria as estações: Córrego Azul, Aracanguá, Saint Martin, Anhangaí, Jacarecatinga, (Manso do) Bacuri, Nova Nipônia (ou Cotovelo), Lussanvira, Ilha Seca, Timboré e Itapura. O percurso inicial desse ramal era onde hoje se encontra a Avenida Waldemar Alves.
- Variante de Jupiá até ser completada, que em 1940 se tornou linha-tronco, que percorria as seguintes estações: Ferninando Laboriau (antiga Ministro Konder ou Konderlândia), Iporanga, Guararapes (antiga Frutal), Rubiácea, Bento de Abreu (antiga Alto Pimenta, Patrimônio Lunardelli, Albinópolis, Diabase), Valparaíso (antiga Vale do Paraíso), Aguapeí, Lavínia, Mirandópolis (antiga São João da Saudade, Comandante Arbués), Machado de Melo, Guaraçaí, Murutinga (do Sul), Planalto, Andradina, Paranápolis, (Alfredo de) Castilho e Junqueira, dali partindo passando por (Rebojo do) Jupiá (até 1926, do lado paulista), Ponte Dr. Francisco Sá (Rio Paraná) - inaugurada em 1926 (antes a travessia era por balsa), Jupiá (lado matogrossense após 1926) e Três Lagoas, de onde seguia para o Mato Grosso do Sul.



Então, vamos rodar e ver o que achamos nesse caminho. Horário de saída: 06:30h.

O começo foi pelo centro da cidade, onde se encontram duas das quatro estações que Araçatuba teve, a segunda e a terceira. A primeira de 1908, não existe mais, pois simplesmente um vagão de madeira que os índios caingangues insistiam em atacar.

A segunda foi construída em 1922 no centro da cidade. Hoje é bem conservada e utilizada pela prefeitura.

Segunda estação.

A sigla UNA na fachada indica que o uso é da Universidade Aberta Da Melhor Idade.


Ao lado da estação se encontra um vagão de passageiros da NOB, da 2a. classe; aparentemente bem conservado por fora, por dentro está totalmente vazio.

A intenção é boa, mas... 

...faltou resgatar a originalidade.

Noroeste do Brasil

A terceira estação, construída em 1963 fica hoje na Avenida dos Araçás, e abriga a Guarda Municipal. Está conservada por ser mais nova e estar em uso, mas é bem visível a deterioração por infiltração de água pelas marquises.

Terceira estação.

Está se deteriorando.

Ocupada pela Guarda Municipal.

Ao redor das segunda e terceira estações ainda restam casas da época destas construções, provavelmente antes utilizadas como residências e escritórios da NOB, todos tombados!A maioria abriga secretarias municipais, associações, sindicatos, museus e outras entidades; a maioria também mal cuidadas, com aparente manutenção de conservação falha, outras, simplesmente fechadas, quebradas e muito sujas.

Museu Marechal Cândido Rondon.
Prédio bem conservado, terreno.. nem tanto.

Secretaria de município.

Fechado, com projetos (vide faixa).

Há uma luz no fim... dessa estada de ferro!
Mas esta faixa está aí desde julho/2014 e até agora?!

Continuando.. segui para a quarta estação, que fica fora da cidade, iniciei por estrada de terra, na Rua Onório de Oliveira Camargo Junior, onde se passa por cima da ferrovia, avista-se um transbordo e a Rodovia Eliéser Montenegro Magalhães ao fundo.


A quarta estação hoje serve de pátio para a América Latina Logística S.A., mas na verdade é um abandono só. Um prédio todo deteriorado e um patio com vagões de todas as idades abandonados.

Estação hoje é utilizada pela ALL.

Área de embarque.

Entrei pela passagem dos trilhos até chegar no pátio, na verdade o lugar é abandonado e pelo horário achei arriscado ficar muito por ali, não se sabe se alguém mora ou se esconde nesse lugar abandonado. Mas deu para explorar um pouco rapidamente.


Vagão amarelo UPTD, não encontrei significado para a sigla.

Em meio a diversos tipos de vagões um chama a atenção, não pela idade, pois deve ser novo, mas pelas árvores que crescem dentro dele, pelo tamanho delas, deve fazer tempo que o vagão está parado ali, não subi, mas fiquei curioso, agronomicamente, em saber qual o substrato do vagão que permite que as árvores cresçam assim.

Vagão cargueiro moderno, com árvores crescendo dentro.

Tudo isto está ali para se acabar com o tempo.

Um vagão dormitório me chamou a atenção e tive que olhar mais de perto, até subi nele, pois me fez lembrar que, quando criança já viajei algumas vezes em parecidos. Eles eram providos de cabines com camas.



 Nota-se que, estes vagões ainda servem como dormitório, pois há vestígios de uso.


Tudo made in Brasil.

Mancal SKF, com a minha idade!

Todo passeio ou viagem de moto, sempre tem algo inusitado a se contar, lá vai uma dessas histórias. Ao sair do pátio resolvi tirar uma foto com a moto sobre os trilhos, nessa hora apareceu uma intrusa que queria aparecer de qualquer jeito, uma cachorrinha magrela.


Ela veio de mansinho, muito medrosa, e até ganhou um carinho. Achei que fosse ali das redondezas e que estava passeando.


Esperei ela sair e tirei a foto com a moto, mas na hora de ir embora vi que ela se dirigiu para uma caixa de papelão ao lado de uma tigela de barro (dessas usadas para macumba), aí percebi a real situação do animalzinho, ela foi abandonada. E ela deve ser bem caseira, pois não saia de perto da caixa, com certeza esperando a volta do dono. Tirei umas fotos da situação triste e, indignado, tive a ideia de divulgá-las no Facebook depois, pois quem sabe alguém poderá recolhe-la.

Como tem gente ruim nesse mundo.

Não é a paisagem mais bonita, mas a moto melhorou bem a imagem..kkk.

Dali, por um pequeno percurso de asfalto, passa-se em frente a quarta estação, como tudo ali, totalmente abandonada e bem destruída.

Voltei ao percurso de terra, acompanhando os trilhos, mas em um determinado ponto eles viram à direita e a estrada se distancia, insistente em ver se era possível andar mais próximo, virei a primeira estradinha a direita e essa decisão foi certeira, pois só assim pude encontrar a primeira estação depois de Araçatuba, a Ferdinando Laboriau (antiga Ministro Konder ou Konderlândia), parei para conhecer e tirar as fotos, mas no momento que desci da moto dois cachorros um weimaraner e um vira-lata pequeno vieram latindo e correndo para mim, sem pensar, voltei e sentei na moto e o maior pulou sobre a minha perna esquerda, foi um baita susto e já pensei que o passeio acabaria ali, comigo atacado por cachorros malucos. Mas o cachorro já veio colocando a cabeça sob minha mão, pedindo carinho, passou o susto. Logo após apareceu um senhor que chamou os cães, desci da moto e disse que iria tirar umas fotos da estação. Todo desconfiado ele me perguntou se eu era repórter ou fiscal da prefeitura, falei que não era, mas ele queria saber o que eu ia fazer com as fotos depois. Já percebi que tinha algo errado ali. Acabamos conversando por uns 10 minutos e descobri o porque do medo das fotos, na verdade ele tem um terreno ao lado da estação e simplesmente anexou o prédio à casa dele; o lado da estação voltado para a ferrovia, segundo ele, é tombado e por isso está deteriorado porque é "o governo" que tem que consertar, na verdade acho que ele não cuida, para não chamar a atenção, pois do lado voltado para a sua casa é cuidado. Contou também algumas histórias da antiga ferrovia (quando os funcionários paravam os trens antes das estações para desviar cargas de grãos) e outras da atual ALL que, segundo ele, não tem interesse em conservar nada via, apenas usá-la até acabar a concessão, só papo bom!(?)

Estação Ferninando Laboriau, com o weimaraner maluco, outro
cachorro querendo aparecer nas fotos!

Esta estação foi inaugurada em 1929, com o nome inicial de Ministro Konder (também chamada de Konderlândia), se apresenta com estrutura boa, uma simples reforma a deixaria muito bonita.

Símbolo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB)

Dali segui margeando os trilhos até encontrar uma passagem para a estrada de terra, a cerca de uns 1.200 metros à direita, encontrei a Capela Santo Antônio do Iporangá, já no município de Guararapes.


Ao parar a moto, o dono da propriedade onde fica a capela já rumou para meu lado, veio andando de uns 100 metros onde era sua casa, e já pensei: senta que lá vem história. Um sujeito muito sorridente, plantador de soja e milho (me desculpe por esquecer o nome). Essa capela foi construída na década de 1920 e funcionou até 1990, se deteriorando depois disso.

Capela antes da reforma
(foto de Paulo Gonçalves/Folha da Região - 15/08/2012)


A comunidade recolheu fundos e fez a reforma, que foi entregue pronta em 13 de dezembro de 2014. Uma quermesse já está nos planos para reativar a capela. Segundo o amigo agricultor, ao redor dali havia uma vila, com casas, comércio e muito movimento, por causa da estrada de ferro. Ali ficava a estação Iporanga (ou Iporangá), construída em 1929, mas demolida antes de 1990, não há resquícios da mesma no local.

E o passeio de hoje, tem outro lado especial, levando a bandeira vermelha do projeto Take de Flag do xt660.net.

Red, rodando!

Rumo agora à zona urbana de Guararapes, conhecer a estação da cidade. Na verdade são duas estações frente à frente, com a linha férrea ao meio. Uma é a Estação Velha, fundada em 1928, com o nome da vila na época, que era Frutal.

Estação Velha

Fachada da Estação Velha.

Hoje: somente ponto de passagem para atravessar os trilhos.


A outra é chamada de Estação Nova, foi inaugurada em 1949, bem maior. Mas igualmente abandonada.

No alto o símbolo da NOB modernizado.

Esta estação poderia ser um grande atrativo da cidade, pois fica na zona urbana, ao lado da rodoviária, de fácil acesso.

Segue a jornada, a rota do GPS me leva para fora da cidade, por mais estrada de terra, agora sentido Rubiácea. A estrada rural termina na vicinal que leva à cidade, que é pequena (2.337 habitantes em 2000) por isso é fácil achar a estação.

A situação do prédio é deplorável, muito ruim mesmo. Esta estação foi inaugurada em 1930, e o município foi criado somente 18 anos após, assim é o prédio mais antigo da cidade.

Até o momento a pior situação vista, simplesmente ruindo.

Não há o mínimo sinal de conservação e metade do prédio já ruiu.


Vai uma foto com a RED, vai saber se um dia volto aqui e
ainda vejo essa estação de pé (provavelmente, não)

Seguindo agora para Bento de Abreu, tudo por terra. No meio do caminho é possível cruzar a ferrovia várias vezes. E lembrando o que o morador da Estação Ferninando Laboriau me contou, sobre a ALL não ter interesse na manutenção da malha, quando observamos o estado dos trilhos, mesmo como leigos, percebemos que o cometário pode ter muito de verdade.

Trilhos tortos.

Trilhos soltos

Dormentes podres (será que são da década de 1930?)

Lembrando ainda o que o morador da estação lá de Araçatuba, também comentou: a ALL trabalha com velocidade reduzida nestes trechos porque a malha não é confiável. Bom, esqueci de dizer que este senhor é ex-funcionário da ferrovia, então deve saber um pouco o que diz.

Segue o bonde, ou melhor, o trem. O destino agora é Bento de Abreu.

No caminho, umas fotos da zona rural.



Em Bento de Abreu a estrada de terra segue bem paralela à linha férrea, assim, quando se entra na cidade a Bento de Abreu (antiga Alto Pimenta, Patrimônio Lunardelli, Albinópolis, Diabase) já está à esquerda, coisa de 100 metros.

Na frente da estação, inaugurada em 1930, há um curral de arame farpado, onde aparentemente criam-se vacas (que não estavam lá). Através de uma porta saíram dois meninos, um de uns 5 anos e outro de uns 2, esse só de camiseta ficava falando uma língua alienígena, pulando e rolando no chão sem parar, o mais velho só ficava fazendo sinal de positivo. Percebi vozes vindo de dentro de um cômodo do prédio, devia ser a família, mas ninguém mais apareceu. Um carro estacionado em outro local da estação, tudo isso indicando, portanto, que o prédio é usado como moradia.

Como ninguém apareceu, além das crianças, fui registrando com fotos.

Frente

Esta também está ruindo, a metade que serve de garagem já não tem telhado, a outra deve estar conservada (de certa forma) pois serve de moradia.

Parte de trás.

Seguindo para Valparaíso. Essa já é uma cidade maior, com mais de 24 mil habitantes, e usei plenamente o GPS para chegar na estação sem ficar rodando à toa; cheguei certinho.

A Estação Valparaíso (antiga Vale do Paraíso), fundada em 1932, é grande com muitas portas, a fachada é aparentemente bem conservada, mas tudo fechado. Não vi acesso para o lado dos trilhos. Apesar do prédio estar de pé, dizem que o lado dos trilhos não tem conservação alguma e também está ruindo, as portas fechadas, na verdade, significam que há uso por estabelecimentos comerciais que não abrem de domingo.

Face oposta aos trilhos

Para ilustrar, consegui uma boa foto na internet, que mostra o lado dos trilhos:

http://www.estacoesferroviarias.com.br/v/fotos/valparaiso04.jpg

Aproveitei também para colocar os meus 48 cavalos para beber água antes da próxima parada: Estação Aguapeí.


A estação Aguapeí fica em meio a uma colônia de fazenda, perto de uma grande igreja. Local bem arborizado e gramado. Achei uma das mais bem conservadas, mas somente porque não foi muito depredada, a conservação também é inexistente. Esta foi fundada em 1933. Dali sairia outro tronco margeando o Rio Aguapeí, mas isso nunca saiu do projeto.

Frente

Bilheteria e Telégrafo

Há fontes que consideram a data de 01/04 e não 25/04.

Parte de trás.

Placa com nome.


De volta à estrada de ferro, o sentido agora é para Lavínia. Tanto o caminho, quanto a estação também estava no GPS e seria possível achar a estação mesmo sem as coordenadas, pois a cidade é pequena e os trilhos já ficam bem visíveis.

Lado dos trilhos

Inaugurada em 1935, o nome da estação foi dado pelo fundador do lugar, o Coronel Joaquim Franco de Mello, em homenagem à sua esposa.

Data de inauguração.

Não há conservação do local, o prédio simplesmente está parado no tempo, totalmente fechado. Pelo menos não aparenta alta depredação e que alguém more ali, porém há casas construídas faceando uma das paredes do prédio.

Parte da frente

Lavínia!

O projeto é ir até Andradina e o GPS desta vez me jogou em uma estrada asfaltada que liga as duas cidades, a qual comecei a seguir. E por sorte, passei ali na hora certa. Eu fiquei pensando a manhã toda se veria um trem (que estivesse funcionando, é claro), e melhor, se conseguiria tirar uma foto junto com a moto, meio difícil tirar uma foto com o trem andando, mas não é que, de repente... aparece um trem, e parado! Não sei o que os maquinistas faziam, vi que os dois estavam do outro lado da rua mexendo em algo nos celulares, então... salve pelos SMS, ZapZaps e Facebooks da vida! Enquanto os dois se distraiam, lá fui eu tirar a foto com a locomotiva.

Tá ai, um trator e um trem!

Como o assunto dos maquinistas devia estar interessante,
porque não tirar mais uma com a Red?!

Após as fotos, fui embora e os caras continuaram nos celulares. Comecei a tocar para Andradina, mas olhei no relógio e já eram 11:30h, gastei a manhã toda neste trecho. Como tinha prometido almoço com a família, inclusive sogros... tinha que voltar dali, até mesmo porque o rango era bom demais! Andradina e outras adiante vai ficar para a próxima, mas vou voltar, e quem sabe não chego até a divisa SP/MS?

Hoje percorri, aproximadamente 200 km, maioria em estradas de terra. Tudo tranquilo, sem problemas com a moto e com o piloto.

Fontes de pesquisa:
http://www.estacoesferroviarias.com.br
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Noroeste_do_Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Esta%C3%A7%C3%B5es_da_N.O.B.
Matéria sobre o futuro museu ferroviário: http://www.folhadaregiao.com.br/Materia.php?id=331803